Quarta-feira, dia 25 de outubro de 2023 - Turmi e Rio Omo
Saímos por volta das 8:00 para irmos para Omorate, que fica às margens do Rio Omo, que dá nome ao vale e é o maior rio da Etiópia, que também abriga o rio Nilo. A distância é de aproximadamente 70 km e no caminho cruzamos novamente com babuínos.
Logo na chegada pegamos o guia local, o Abdi, da tribo Dasenach (que significa “povo do delta”), e fomos comer um peixe típico da região, num boteco à beira do rio.
O peixe se chama Perca-do-nilo e para mim foi a melhor coisa que comi na Etiópia. Uma carne super macia, branquinha, uma delícia. Veio servido por cima do pão de injera e eles jogam molhos por cima do pão e vamos comendo. Fiquei só no peixe e num molho apimentado, porque pão de injera só na próxima encarnação.
Logo na chegada fomos recebidos por um grupo de umas 8 jovens da tribo Dasenach e fomos juntos caminhando para ir visitar uma das vilas. Os Dasenach se parecem muito com os Hammar, mas com uma diferença clara na questão do cabelo
Muitas untam o cabelo da mesma forma, mas meninas solteiras usam franja, ao passo que as casadas não usam franja e quando têm o 1º filho raspam totalmente o cabelo. Depois que cresce novamente, elas continuam sem usar franjas e a partir do 2º filho elas fazem uma pequena trança no topo da cabeça para cada filho. Ou seja, quando eu chegar em casa vou obrigar minha mãe a usar 2 franjas no cocuruto da cabeça.
As jovens que nos acompanhavam iam o tempo protestando e depois descobri que era porque Abdi estava nos levando para outra vila e não para a deles. Estava uma manhã de sol super forte (calor da peste) e o caminho era através de um terreno bem arenoso.
Quando chegamos na vila já havia uma exposição montada dos objetos deles para venda para turistas e me chamou a atenção uma espécie de garrafa, além dos Borkotas que estavam à venda.
Abdi me explicou que estas garrafas têm relação com os matrimônios, porque quando acontece um casamento o noivo tem que dar o dote à família da noiva, mas a entrega completa só é feita após o nascimento do 1º filho, porque se não tiverem filhos o casamento é anulado. A garrafa é um presente que o marido dá à sogra quando nasce o 1º filho. Ela é dada cheia com leite e cada garrafa tem símbolos que indicam a família.
Na viagem de volta cruzamos com vários Dik-dik, que são uma espécie local de veadinho, bem pequeninos. O Malek me disse que eles têm este nome Dik-dik porque eles têm as pernas curtas e quando correm fazem um barulho como dik dik dik dik dik dik.... Ele também me falou que os Dik-dik são deliciosos, carne bem macia, e adorados pelos animais locais, como leões e leopardos.
À tarde fomos assistir a uma cerimônia de salto de bois (Bull Jumping Cerimony) de um jovem de uma das vilas Hammar. Esta cerimônia é um rito de passagem para o jovem, que a partir dela já pode se casar e também se tornar um açoitador.
A viagem até a vila foi bem longa, tivemos que cruzar um rio com o carro e boa parte dela foi feita ao longo do leito de um dos rios, totalmente seco. Aliás, outra semelhança como o nosso sertão brasileiro, muitos rios secos. O Malek me disse que quando chove bastante eles chegam a encher, mas que isso dura pouco porque a água logo penetra no solo e o mais comum é termos os rios secos ao longo do ano.
A paisagem ao longo do caminho era linda, com muitas belas árvores ao longo do trajeto.
Finalmente chegamos num local onde várias pessoas já estavam se ajuntando, entre elas os açoitadores, que são os personagens principais da cerimônia, além do jovem que vai pular os bois.
Foi aí que presenciei as cenas de açoitamento. As jovens carregam uma peça cheia de chocalhos metálicos na base das pernas (no mocotó) e uma pequena corneta. Algumas carregavam os próprios galhos que seriam usados pelos açoitadores. Vez ou outra uma jovem se aproximava de um açoitador e começava a dar pulos para cima e tocar a corneta, até que ele a açoitasse. Não foi uma cena que gostei de assistir, mas sei que faz parte da cultura e tradição deles. Certamente eles ficariam muito mais horrorizados se presenciassem as cenas de abandono de crianças nas ruas e nas drogas, que temos no Brasil.
No mesmo local também estavam acontecendo algumas pinturas na cabeça de homens, outra tradição deles. Parte da cabeça é raspada e depois outro homem vem pintar e tudo isso junto com uma textura que vai deixando tudo em alto relevo. O líder dos açoitadores também ganha uma pintura no rosto e em seguida todos nos dirigimos para a vila, para uma cerimônia na casa dos pais do jovem.
As mulheres ficam de um lado e os açoitadores e os mais velhos ficam debaixo de um toldo de palha e couro, bem em frente às panelas de barro onde está sendo preparado o famoso café ruim de casca de café. Os açoitadores se sentam na fila da frente do toldo, começando com o líder, que se senta bem no meio, com as pernas abertas. Cada novo açoitador que chega carrega folhas de uma planta (não sei o nome), colocando algumas na panela do café e colocando as demais no meio das pernas do líder.
Quando estão todos sentados, os pais do jovem chegam com várias cabaças e vão colocando café nelas e antes de entregarem ao líder dos açoitadores eles fazem uma pequena cerimônia. Eles fazem movimentos ondulares com a cabeça por cima das folhas que estão entre as pernas do líder, depois entregam a cabaça ao líder, que depois distribui para o próximo da fila, o qual coloca na frente dos pés, aguardando que todos recebam.
Para minha infelicidade, me colocaram nesta fila da frente, numa das extremidades, sentado num toco de pau que quase rachou minha bunda no meio. Em descompensação, meu guia sumiu e fiquei eu lá, largado, ao lado daquele monte de homens açoitadores, sem saber qual o ritual. Quando a cabaça chegou no sujeito ao meu lado, ele gentilmente me ofereceu e eu gentilmente recusei. Aí ele ofereceu de novo, na linguagem verbal e gestual que já começaram a soar como ameaçadoras, mas eu continuei recusando. Aí o colega açoitador ao lado dele veio lhe dar apoio moral para insistir mais uma vez comigo, ambos com uma cara do tipo “pegue esta porra agora, e você vai beber”. Já senti a chicotada nas costas, imaginando que se eles chicoteiam por causa de uma cornetada, imagine uma recusa de café abençoado. Mas recusei mais uma vez e para o bem da minha pele de pêssego não houve retaliação.
Durante esta recepção na casa da família do jovem, as mulheres faziam um cortejo em círculos, cantando, balançando seus chocalhos e tocando as cornetas.
Após a cerimônia do café e das danças, saímos todos para o local onde ocorreria a cerimônia do salto dos bois, eu achando que era logo ali, pertinho. Meninos, andei que só a peste! Parecia que a cerimônia seria no Quênia, por não chegava nunca. Fomos andando sempre pelo leito do rio e sempre as pestes das crianças vindo puxar assunto.
Chegamos numa encruzilhada e fomos orientados a esperar, tanto pelas pessoas que ainda estavam caminhando quanto pelos bois. Nisso passa o jovem correndo pelado pela gente, salientando aqui que o rapaz salta a fila de bois pelado. Depois passam os bois, chegam as pessoas e finalmente seguimos para o local.
Era uma área aberta, num morro, e tudo começa com o ajuntamento dos bois numa área, enquanto as mulheres ficam andando em torno dos bois, cantando, tocando os chocalhos e s cornetas. Aí o jovem aparece e começar a passar a mão do fi-o-fó dos bois, até escolher o predileto e ficar bastante tempo massageando o fi-o-fó deste pobre coitado, o escolhido. O Asu me disse que isso acalma o boi e que o escolhido é que será o primeiro da fila. Por várias razões óbvias eu não queria estar na pele e muito menos no cu do boi.
Finalmente começa a cerimônia, os açoitadores pegam os bois, sempre em dupla, um pela cabeça e outro pelo rabo, e vai enfileirando, até montar uma fila de 4 a 5 bois. O rapaz então corre e vai saltando a fila, pisando na cacunda nos bois, saindo ileso do outro lado. Ele repete isso ao menos 4 vezes, sendo que o nosso herói o dia não queria parar. Fez isso 6 vezes até ser contido por uma espécie de padrinho da cerimônia.
Felizmente a cerimônia é exclusiva para o jovem da vez, de maneira que mais ninguém pode saltar os bois. Porque senão eu certamente iria inventar de saltar, pelado, com consequências imprevisíveis. Na melhor das hipóteses eu voltaria para casa roncoio (macho com um ovo apenas), porque certamente iria cair de perna aberta na cacunda de algum dos bois.





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