Segunda-feira, dia 23 de outubro de 2023 - Chegada em Jinka

 


Cheguei por volta das 9:30 da manhã no aeroporto de Jinka, super pequeno, onde fui recebido por Degu, que vai me guiar pelos 4 dias na região do Vale do Omo. A imagem abaixo mostra como fica a divisão das principais tribos da região

 


Comigo no carro estava um casal de russos, cuja nacionalidade eu já tinha percebido antecipadamente, pelo belo perfil eslavo da mulher. Ficamos todos no mesmo hotel (Jinka Resort), numa área bem arborizada, mas com quartos bem espartanos.

O hotel me lembrou uma lastimável experiência que tive em Nova Déli, quando me hospedaram num Ashram (Sri Aurobindo) e mal consegui ficar 1 noite, praticamente sem dormir, por conta literalmente de tudo, higiene, roupa de cama, cama, banheiro, etc. 

Não dá para entender como alguém pode achar um Ashram como aquele um lugar sagrado. Aliás, se aquilo é sagrado prefiro o caminho do pecado, onde seguramente encontraremos cama com molas ensacadas, roupa de cama com algodão egípcio 800 fios, entre outros itens essenciais à sobrevivência humana e ao culto espiritual.

Depois do almoço e da soneca saí com um novo guia, Melak Chuli (direita na foto - contato: +251 92 193 2800) e o motorista Stephen (esquerda), para minha primeira experiência em Jinka. Ambos são super simpáticos e fizeram o máximo para tornar a viagem mais especial. O Stephen passa a maior parte do tempo comendo folhas (café, por exemplo) enquanto dirige, fazendo dele o primeiro humano herbívoro que já conheci, porque vai além de ser vegetariano.



Fomos visitar 2 tribos, Banna e Ari, mas começamos por uma visita à feira livre (mercado Kako), que ocorre semanalmente, às segundas-feiras.

Eu adoro mercados e feiras, mas este era bem diferente do que eu estava acostumado. Começamos por uma rua de terra, onde ocorria a venda de animais, essencialmente gado e cabras.

Aqui vale uma anotação sobre estes animais na região. Eles literalmente são os reis das estradas, porque a cada minuto você tem que parar o carro porque vem uma boiada ou uma cabrada, andando tranquilamente pelo meio do asfalto, enquanto o dono vai pelo acostamento, sem tomar nenhuma atitude. Outra coisa curiosa é que o gado aqui é super pequeno, parece gado anão. Não vi nenhuma vaca ou boi com tamanho similar ao que vemos no Brasil. São tipo um pônei bovino.

Outros bichos que vi bastante foram jegues e mulas, mas neste caso não vi nenhum à venda, para o caso de alguém ter interesse em comprar um jegue no sul da Etiópia. Tenho certeza de que eles fariam entrega à domicílio, porque todo mundo que vende jegue faz entrega a domicílio, independente da distância.

A paisagem é extremamente parecida com o que vemos no Brasil, especialmente em regiões férteis do Nordeste. Cana-de-açúcar, manga, goiaba vermelha e goiaba BRANCA (nunca mais comi uma goiaba branca), banana... Ou seja, tirando jaca e mangaba, é como se eu estivesse em casa.

O Melak comentou sobre os costumes das mulheres da tribo local com relação ao cabelo. As que são casadas fazem mechas de cabelo com gordura animal e pigmento ocre, no formato de cordões, ao passo que as solteiras fazem o que quiserem com o cabelo, normalmente tranças. 

Aqui a poligamia é comum e ele me disse que existem 3 tipos de casamento. Os arranjados, quando as famílias combinam antecipadamente, a partir de acordos comerciais. Os raptados, quando o homem rapta a noiva e isso sempre acaba em problema. Os negociados, quando o casal decide ficar junto e o noivo providencia o dote para dar à família da noiva. Ele está no momento trabalhando com foco nesta terceira opção, porque disse que sua família só arranjava noiva feia e ele perdeu a confiança na capacidade da família de arranjar um bom e belo casamento. 

Na segunda parte do mercado fomos ver onde vendem os grãos, cerâmica e objetos de trabalho. O cenário da parte dos grãos é incrível, tudo a céu aberto, cada vendedora (essencialmente mulheres) com sua área demarcada por uma grande esteira aberta no chão, em cima da qual elas vendem os grãos (Sorgo, Tef,...), cada um com sua cor e textura diferente, formando pequenos montes coloridos.  


Achamos uma que estava vendendo o Tef, o tal cuja farinha serve para fazer a Injera. É um grão claro, super delicado e bem pequeno, quase como uma farinha bem grossa, só que um pouco mais escuro (bege claro). Você coloca na mão e parece que vai sair voando.

 


Quando chegamos na parte da cerâmica vieram cenas da minha infância em Boquim, porque as peças mais bonitas eram grandes potes de barro para armazenar água para beber, sempre fresca e levemente fria. Isso me lembrou dos porrões de barro, que na casa de Vovó Nonó tinha um que ficava na cozinha, bem perto do poço d’água, mas que era abastecido com água da chuva, filtrada através de um fico pano branco. Em cima do pano tinha uma tampa de barro e em cima da tampa uma caneca de metal, que ajudava a água a ficar ainda mais fria, que era a sensação principal da água de pote.

 


Mas a diferença principal para mim foi a beleza da obra de arte dos potes daqui, porque eles têm alças laterais bem grandes (como uma cânfora bem larga), são lisos e de uma cor marrom brilhante, como se fossem polidos, e na borda do pote há sempre um detalhe cravado no barro. Se não fosse impossível de carregar num avião, eu certamente teria comprado um porque foi um dos potes mais lindos que já vi e realmente me chamou a atenção a cor e o brilho da cerâmica deles. Desculpe minha querida e finada Vovó Nonó, mas seu pote não chegava nem perto da belezura dos daqui.

 


A parte negativa foi ver várias esteiras vendendo roupas feitas na China, da pior qualidade e feiura possíveis, a maioria representando times de futebol. Claramente as pessoas daqui estão mudando seus hábitos de vestimenta e adotando hábitos ocidentais, e tudo comprado da China. 

UNESCO Urgente!!! Precisamos mandar cercar a China e impedir que saiam mais produtos de lá!!!

Realmente deveria haver um embargo global contra a China porque eles estão causando um estrago irreversível à humanidade. Vi poucas pessoas usando as vestimentas tradicionais e isso foi uma pena porque eram as pessoas mais lindas e charmosas da vila.

Fomos visitar uma tribo, chamada Bana, numa região ocupada por uma mesma família, com algumas casa (4 ou 5), próximas umas das outras. As casas parecem ocas indígenas, só que muito menores e mais baixas e com a parte inferior das paredes preenchidas com barro. Me disseram que isso é porque aqui faz frio à noite, ao contrário das ocas que temos no Brasil, que são imensas e altas, por conta do calor. 

Logo na entrada achei genial o galinheiro com arame farpado (galhos com espinhos), para evitar que os bichos ataquem as galinhas à noite.

 


Para entrar na casa tive que me abaixar bastante e lá dentro uma linda jovem da tribo me aguardava para me servir um café feito com a casca do café, servido numa metade de cabaça. Bom, o sabor era horroroso e bebi só dois goles, porque certamente meu sistema intestinal não está preparado para certas experiências. Bebi lembrando dos tempos em que eu comia amendoim no barbante, no estádio de futebol, vendido por um cara que suava mais que tampa de chaleira, tudo isso debaixo de um sol aracajuano de domingo. Ou seja, depositei toda minha esperança de sobrevivência nas bactérias fermentadas nesta fase importante da minha vida.

Na visita, experimentei me sentar num Borkota (Boorati), uma peça feita em madeira que serve para descanso da cabeça e também para sentar. É uma peça de madeira côncava, apoiada em pés de madeira, que você coloca no chão e apoia sua nuca para tirar um cochilo. Linda e espero comprar uma antes de volta ao Brasil, para aperfeiçoar minha soneca pós almoço.

 


Em seguida partimos para visitar a segunda tribo, os Ari, da qual eu já posso me considerar bastante íntimo porque em Addis Ababa eu dancei junto com um grupo de deles, no restaurante em Addis.

Fiz a visita acompanhado pelo Dani, um morador de comunidade, que organizou para que eu pudesse ver um pouco de cada uma das atividades locais. No caso, a produção de cerâmica, de instrumentos de trabalho, do pão de injera e da bebida alcóolica Arrake.

Logo na descida do carro fui recebido por uma pequena e linda jovem, uns 7 anos de idade, que veio ajudar no passeio. Ao longo do passeio, cruzei por várias pessoas incrivelmente lindas desta tribo.



Começamos por visitar uma senhora que produz peças de cerâmica e que no momento estava fazendo uma panela no formato de bandeja de pizza, que aqui vi em 3 tamanhos diferentes, sendo que o maior deles é para fazer o pão de Injera. Estas panelas são verdadeiros objetos de arte e qualquer pessoa adoraria ter uma delas, ornando a mesa, talvez para colocar frutas.

 


Em seguida fomos ver a produção de ferramentas de trabalho, mais especificamente facas, machado, foice, entre outros. No local havia um garoto, talvez 13-14 anos de idade, fazendo uma faca longa e curva, semelhante a uma espada. O garoto fazia seu trabalho sentado de cócoras, pressionando continuamente uma bexiga feita de borracha de pneu de carro, que ventilava um bolinho de carvão colocado num pequeno buraco, que funcionava como uma fornalha, para amolecer o metal. Aos poucos eles retirava o pedaço de metal e usava o martelo para ir moldando. Ele disse que ainda é aprendiz do pai, mas é um trabalho bem duro e cansativo e as peças produzidas são bem rudimentares, à exceção dos machados, cujos cabos eram de pedaços de árvores, em formatos muito interessantes, tortos, que davam um certo estilo às peças. Também fiquei com vontade de comprar, mas tinha lido nas regras da empresa aérea que eles não permitem que carreguemos machados e foices na bagagem de mão, dentro da aeronave, um absurdo!




Na mesma residência, uma mulher começou a preparar o fogo para fazer o pão de Injera, usando aquela panela linda que comentei acima. Depois da panela estar bastante quente ela unta com um óleo e vem com o líquido branco e denso num pote, derramando na panela fazendo círculos, algo similar a quando fazemos crepes. Em seguida ela tampa a panela com uma peça feita de palha, num formato quase piramidal, e aguarda até o pão ficar pronto. Depois veio a hora do teste e pelo menos bem quentinho o famoso pão de Injera era menos ruim.

 


Depois desta visita, fomos numa casa logo em frente para ver a produção da bebida alcóolica da tribo, a Arrake, que é feita à base de grão de Sorgo, junto com um tipo de milho bem claro (quase branco) e Gesho

O milho fica em água por 5 dias, até começar a brotar. Depois é misturado aos grãos de Sorgo e ao Gesho, tudo é moído e volta a ficar em água por outros dias, fermentando. Por fim, este líquido é colocado numa destilaria super rudimentar, com as extremidades feitas de cabaça (a parte inicial, onde o líquido original é colocado, e a parte final, que armazena o Arrake, e que fica dentro de um balde com água, para resfriar o produto). Conectando estas 2 partes há um tubo de bambu. Experimentei a bebida, incrivelmente transparente, e achei tomável, mas nada especial. A melhor parte da bebida foi conhecer o processo.

 


Uma coisa engraçada do dia é que várias vezes mencionei para as pessoas que eu era do Brasil, achando que ouvindo a palavra “Brasil” elas saberiam de onde eu vinha e ficariam curiosos e contentes de me conhecer. Isso até o Melek me dizer que a grande maioria sequer sabe onde fica Addis Ababa, quanto mais o Brasil, que eles não fazem nem ideia se é de comer ou de beber.

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