Terça-feira, dia 24 de outubro de 2023 - Tribo Mursi e viagem a Turmi

Saímos cedo, por volta das 7hs, para irmos visitar uma vila da tribo Mursi, conhecidos pelos adereços que usam nas orelhas (homens) e no lábio inferior (mulheres), além das marcas que eles fazem na pele, provocando formas similares a queloides, mas que na cultura deles é um elemento de beleza, como se fosse uma tatuagem de alto relevo e da cor da pele. 

Melak me disse que devem existir em torno de 10 mil Mursis, espalhados por diversas vilas, sendo que nem todas as vilas se relacionam umas com as outras.

O caminho é longo, mais ou menos 60 minutos de carro, cruzando o parque nacional de Mago (rio de fogo, na língua Mursi), por uma estrada de terra que estava em muito melhor estado do que a que eu pego em Santa Luzia do Itanhy para ir para minha casa.

Havia uma remota possibilidade de cruzarmos com algum animal grande, tipo leão, leopardo, búfalo, mas no caminho de ida só cruzamos com uma família de babuínos e várias galinhas d’angolas.

Uma das cenas mais bonitas da viagem de ida foi quando entramos num trecho bastante longo e reto, que dava para ver o horizonte, e lá, bem distante, havia um ponto vermelho. Na medida que fomos nos aproximando, o ponto foi se revelando como o primeiro habitante Mursi que encontramos. Era um homem, super alto e esguio (típico da tribo Mursi), com um rosto delicado, mas forte, e coberto por uma túnica vermelho vivo. A cor da pele dos Mursi é preta bem escura, de maneira que as túnicas coloridas dão um contraste bem bonito.

Entramos por uma pequena estrada marginal, até chegamos numa vila, que estava vazia. Logo apareceram 3 homens, um deles portando um rifle AK-47 (primeira vez que vejo uma cena como esta), e vieram nos contar que dias atrás uma tribo rival (Mursi Bodi) os atacou para roubar gado e matarem 3 pessoas. Com isso, as pessoas da vila fugiram para se esconder na montanha, enquanto eles ficaram vigiando a vila.

Fomos então para a próxima vila, que estava cheia de gente. O carro estacionou debaixo de uma grande árvore, logo na entrada, onde haviam diversos homens simplesmente deitados no chão, cada um com sua túnica, pelo visto sem nada para fazer. Conheci o chefe da tribo e logo chegaram 2 homens portando suas AK-47 e um monte de criança, uma delas me mostrando o colar feito com uma bala de fuzil.

Aqui um comentário sobre Crianças. Elas são o pior pesadelo para qualquer turista, porque não têm nenhum acanhamento, vêm em bando e puxam papo com você o tempo todo, independente de você estar entendendo ou não. Ou seja, crianças são o que há de pior numa viagem!

Quando eu estava com o guia acabava pedindo ajudar no diálogo, mas quando estava sozinho acabava me rendendo ao monólogo bilateral, porque cada um falava em sua própria língua e nenhum dos lados entendia nada. Minha conversa era sempre a mesma: "veja bem, você está falando comigo e eu não estou entendendo nada e eu estou falando com você em português e você também não está entendendo nada. Como isso não vai nos levar a ligar nenhum, seria melhor pararmos por aqui e cada um segue seu caminho". Não sei quantas vezes repeti este diálogo.

Existe sempre uma cerca de postes de madeira no entorno das vilas, com uma entrada principal. 

A vila é essencialmente formada por ocas de palha, bem pequenas e simples, e fiquei surpreso quando o Melak disse que chegam a morar 7 pessoas numa mesma oca. 



Assim que entramos na vila começaram a sair das ocas várias mulheres e crianças, colocando esteiras no chão e os objetos de barro que elas produzem, no caso os discos que elas usam no lábio inferior e réplicas de animais, sempre com alguma pintura. Os discos são muito bonitos e com variadas formas e cores.

 


Uma das mulheres me pediu para sentar, para ela pintar meu rosto com uma tinta marrom avermelhada. Eu aceitei, mas o resultado final não ficou grande coisa e percebi que o objetivo real dela era apenas ganhar dinheiro pela oferta e não realçar minha beleza.

Depois foram me mostrar como se coloca o disco no lábio, algo que não achei nada agradável de ser ver, mas faz parte da cultura deles, e também vimos uma das mulheres fazendo novos discos, num sistema de queima da peça em cerâmica, bem rudimentar, no chão mesmo, no meio da vila.




 


Um momento engraçado foi quando peguei o celular para mostrar uma foto do cacique Raoni, que também usa disco labial, e o chefe da tribo ficou achando que eu havia montado a foto para tirar sarro deles. Não é a melhor sensação do mundo você ficar de frente de uma pessoa com uma AK-47 e com ela achando que você está tirando sarro da cara dela.

Felizmente ele viu isso como engraçado, continuou sem acreditar que a foto era verdadeira, mas pelo menos não levou como ofensa, porque senão eu não estaria aqui escrevendo este texto. Fiquei agora com a obrigação moral de organizar um encontro entre os Mursi e os Caiapós, para recuperar minha honra, parcialmente perdida na Etiópia.

Na viagem de volta para Jinka vim com uma sensação ambígua. Boa pelo lado de ter conhecido pessoas de uma tribo tão peculiar e com uma riqueza estética e cultural tão preciosa, mas ruim pelo lado da violência e tensão que encontramos no local e da maneira extremamente pobre que se estabelece a relação com os turistas. Se, por um lado, eu vi pessoas incrivelmente preciosas e com uma riqueza incomum, por outro lado, a maneira como a visita é conduzida acaba sendo algo apenas mercantil, colocando os Mursi como “produtos” exóticos.

Essa forma de banalização da relação com comunidades diferentes é fruto desta nossa arrogância de acharmos que somos seres superiores, algo que infelizmente é reforçado pelo modelo de turismo existente nestes locais.

Por volta das 12hs começamos a viagem para Tumi, onde vou ficar por 2 noites. 

Gastamos quase 2 horas e meia para chegar a Tumi, porque a estrada é praticamente toda de terra e toda hora temos que reduzir e/ou parar por conta do gado e das cabras, os reis das estradas.

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